Se eu pudesse dar um presente ímpar, sublime, de valor inestimável, a algum inventor, com certeza seria da mente fértil que inventou a tal da geladeira. É claro, estou desconsiderando aqui valores sentimentais como a vida, a educação e o amor, e considerando só a coisa prática mesmo: viver sem geladeira é o caos.
E você não nota isso até que você fique sem - como tudo na vida. No mercado, por exemplo, aquelas sobremesas prontas vêm de duas em duas. Isso significa que você, que mora sozinho, vai comer uma e colocar a outra na... geladeira!
E que tal o leite do café da manhã? Você coloca um pouco na caneca e... geladeira!
Manteiga? Geladeira!
Suco? Leite de soja? Fruta? Geladeira!
Torta? Tá, você entendeu!
Estou há uma semana morando sozinho, e nunca havia sentido tanta falta de uma geladeira. E de outras coisas, na verdade... sem fogão, por exemplo, não dá pra cozinhar nada. Ou seja, estou há uma semana comendo em restaurantes ou improvisando algo por aqui.
Improvisando, por exemplo, o café. O de amanhã, inclusive, já está preparado e programado na minha cafeteira geek. Mas não tem leite: é leite condensado, uma "gambiarra" que fazemos nos acampamentos para tomar algo próximo de café com leite nas manhãs geladas da cordilheira...
Sabe o sabonete líquido de cima da pia? Ele também não vem sozinho! Tem que comprar no mercado... Tal como pratos. Aliás, estes eu ainda não tenho. Segundo a Taís, é mais interessante comprar um jogo de jantar inteiro do que tudo separado. Estou procurando um jogo de jantar branco - achou que era fácil, né?! (Eu achava!)
E é isso. As coisas aos poucos estão se ajeitando, e minha casa começa a ficar com cara de casa - e não acampamento. Apesar de que, se depender da cadeira onde estou sentado agora - aquelas de armar no camping - essa impressão ainda vai levar algum tempo pra passar! Abraços, e ponto.
Que o fim está próximo, todo mundo sabe! Mas já que isso não podemos evitar, que tal combinarmos um pouco de saúde com um bocado de sorte e fazermos cada segundo realmente valer a pena?
terça-feira, 8 de março de 2011
domingo, 27 de fevereiro de 2011
As notícias!
Perguntaram-me, e algumas vezes, se eu havia parado de escrever. A pergunta faz sentido, já que acompanho diariamente a morte, lenta e sufocada, deste blog de poucos leitores. Mas a resposta, creio, seja o oposto do que parece...
Criei este blog quando este binômio estava em alta junto com a minha solidão. Em um momento no qual precisava descarregar minhas energias e ideias em um canto que fosse pessoal o suficiente, mas que ao mesmo tempo pudesse receber os amigos - e os inimigos, que afinal são também importantes -, criei o espaço. Para o nome, pensei em duas coisas que fossem essenciais para a vida. E quê, afinal, pode ser mais essencial do que termos saúde e sorte, não é mesmo?!
Entendo que outras coisas são importantes. Valorizo a família, o amor, a comida (não dá pra viver de luz, certo?!) e tantas outras coisas. Mas ninguém me convence que consegue ser feliz sem saúde, ou com excesso de azar. Você pode nunca ter ganhado nenhum sorteio no Twitter, mas se você topa o dedo toda vez que sobe uma escada usando Havaianas não tem jeito de você ser feliz (desculpe-me!).
Então, quando fizemos um pedal fantástico, indo por 130km de estradas precárias e montanhosas até Castro, achei que era o momento de voltar a escrever. E criei este espaço, ao qual dediquei tempo suficiente para me sentir bem. Creio ter inspirado alguns amigos, e receio ter feito deprimidos outros cujos vícios reprimiam a saúde e espantavam a sorte. Lamento por estes, e sempre lamentarei. Não tenho preconceitos com vícios, tenho conceitos formados e não mudo minha opinião: abomino todos os maléficos mesmo, e deixo isso bem claro aos meus amigos.
Aconteceu que, depois da Maratona de Curitiba, na qual já corri machucado, eu passei por três meses de "falta de saúde". Parei de correr e quase parei de andar por conta da lesão na perna esquerda, e minha vontade de escrever esvaiu-se com minha proibição aos exercícios físicos. Trabalhei como há tempos não trabalhava, e somente agora, na metade de fevereiro retomei os treinos.
Paralelo a isso, vieram algumas decepções - de amigos, principalmente. De amores mantive distância, apenas abri meu coração em Dezembro - e aberto à ela ele permanece. Mas passei por decepções que me fizeram repensar sobre tudo ao meu redor.
Receio que amizades possam te ferir mais do que amores. Porque amores são intensos, dominadores, mas no fundo, bem no fundo, sabemos que eles podem terminar. Amizades, por vezes, acreditamos ser pra sempre. Por mais que nunca mais tenhamos visto nossos "melhores amigos" da infância, creio que pensemos que "no mundo adulto" é diferente. Não é - é pior.
Por fim, afastado da maioria das pessoas e sem a endorfina das corridas, por hora não faria sentido escrever neste espaço - que sempre fora tão recheado de boas energias. Acho que os dois ou três leitores que acompanhavam assiduamente este blog tinham um propósito ao lê-lo: buscar energias. E isso não seria possível nos meses.
A boa notícia é que isso mudou! As energias voltaram agora, com treinos, amor e outros detalhes complementares. A má notícia é que, talvez, este blog morra mesmo. Afinal, uma vida que tenha muita saúde e muita sorte... Bem, talvez esta vida não caiba no mundo virtual, certo?! Talvez, ela seja mesmo pra ser vivida no mundo real! Mas... quem sabe. Parafraseando aquele povo doido da Bandnews, em 20 minutos tudo pode mudar! : ) Forte abraço, e ponto!
Criei este blog quando este binômio estava em alta junto com a minha solidão. Em um momento no qual precisava descarregar minhas energias e ideias em um canto que fosse pessoal o suficiente, mas que ao mesmo tempo pudesse receber os amigos - e os inimigos, que afinal são também importantes -, criei o espaço. Para o nome, pensei em duas coisas que fossem essenciais para a vida. E quê, afinal, pode ser mais essencial do que termos saúde e sorte, não é mesmo?!
Entendo que outras coisas são importantes. Valorizo a família, o amor, a comida (não dá pra viver de luz, certo?!) e tantas outras coisas. Mas ninguém me convence que consegue ser feliz sem saúde, ou com excesso de azar. Você pode nunca ter ganhado nenhum sorteio no Twitter, mas se você topa o dedo toda vez que sobe uma escada usando Havaianas não tem jeito de você ser feliz (desculpe-me!).
Então, quando fizemos um pedal fantástico, indo por 130km de estradas precárias e montanhosas até Castro, achei que era o momento de voltar a escrever. E criei este espaço, ao qual dediquei tempo suficiente para me sentir bem. Creio ter inspirado alguns amigos, e receio ter feito deprimidos outros cujos vícios reprimiam a saúde e espantavam a sorte. Lamento por estes, e sempre lamentarei. Não tenho preconceitos com vícios, tenho conceitos formados e não mudo minha opinião: abomino todos os maléficos mesmo, e deixo isso bem claro aos meus amigos.
Aconteceu que, depois da Maratona de Curitiba, na qual já corri machucado, eu passei por três meses de "falta de saúde". Parei de correr e quase parei de andar por conta da lesão na perna esquerda, e minha vontade de escrever esvaiu-se com minha proibição aos exercícios físicos. Trabalhei como há tempos não trabalhava, e somente agora, na metade de fevereiro retomei os treinos.
Paralelo a isso, vieram algumas decepções - de amigos, principalmente. De amores mantive distância, apenas abri meu coração em Dezembro - e aberto à ela ele permanece. Mas passei por decepções que me fizeram repensar sobre tudo ao meu redor.
Receio que amizades possam te ferir mais do que amores. Porque amores são intensos, dominadores, mas no fundo, bem no fundo, sabemos que eles podem terminar. Amizades, por vezes, acreditamos ser pra sempre. Por mais que nunca mais tenhamos visto nossos "melhores amigos" da infância, creio que pensemos que "no mundo adulto" é diferente. Não é - é pior.
Por fim, afastado da maioria das pessoas e sem a endorfina das corridas, por hora não faria sentido escrever neste espaço - que sempre fora tão recheado de boas energias. Acho que os dois ou três leitores que acompanhavam assiduamente este blog tinham um propósito ao lê-lo: buscar energias. E isso não seria possível nos meses.
A boa notícia é que isso mudou! As energias voltaram agora, com treinos, amor e outros detalhes complementares. A má notícia é que, talvez, este blog morra mesmo. Afinal, uma vida que tenha muita saúde e muita sorte... Bem, talvez esta vida não caiba no mundo virtual, certo?! Talvez, ela seja mesmo pra ser vivida no mundo real! Mas... quem sabe. Parafraseando aquele povo doido da Bandnews, em 20 minutos tudo pode mudar! : ) Forte abraço, e ponto!
domingo, 21 de novembro de 2010
E foi-se a Maratona de Curitiba!
Eram 5 horas da manhã quando o relógio despertou. Apesar da ansiedade extrema desde dias antes, um pouco de música calma e um bom banho fizeram-me relaxar antes da noite. Dormi muito bem, e acordei ainda melhor.
A canelite na perna esquerda sumira, pelo menos para caminhar. Às 5h50 minha mochila estava pronta, e eu estava de café tomado e vestido de "maratonista". O dia chegara, o dia finalmente chegara. Eu não cabia em mim de tanto ânimo.
Cheguei lá a tempo de ver as meninas passarem por nós, pontualmente às 6h30. Gritei para a Nádia e a Tânia, doando-as um pouco de energia extra - apesar de considerar que elas não precisariam (pensa em duas corredores muito fortes!!).
E então fui para a tenda da V8, para o aquecimento e alongamento. No aquecimento, a cada passo eu sentia uma pontada na canela. Racionalmente, eu não devia estar lá. Mas convença alguém que, por 3 meses, mastigou o desejo de viver aquilo; que abriu mão de voos, de saídas, de festas, por conta do "longão do dia seguinte". Nas quartas-feiras, eu acordava às 6h para ir ao parque treinar. Eu acordo às 8h normalmente, mas acordava às 6h para seguir a planilha. A ideia de desistir por conta de uma inflamação na perna que resolveu aparecer 10 dias antes da prova sequer passou pela minha cabeça.
O problema é que eu fiquei 10 dias sem treinar, e estes 10 dias saíram caro. Ganhei algum peso neste meio tempo, e perdi um pouco do ritmo. Para compensar isso, segurei o ritmo em 5:15/5:20. Não ajudou muito. Já na largada eu me sentia pesado e cansado. E a canela não queria ajudar.
O Tiago, que também treina na V8, iria fazer 21k para este ritmo, e seguimos juntos por um bom trajeto. Foi uma companhia muito bacana, demos algumas risadas no caminho e nos desgarramos no km 13. Apesar de ele ser mais forte do que eu, não estava num dia bom e baixou o ritmo ali.
E foi neste momento que eu prestei atenção na minha perna esquerda. A verdade é que eu não fazia um movimento de "corrida" com ela. Ela havia endurecido e era um bloco só correndo, como que não tivesse joelho. O corpo é mesmo incrível: para evitar a dor, ele simplesmente mudou a minha mecânica. Mas é claro que o preço disso não é baixo, e eu já sabia disso quando optei por correr mesmo com a inflamação.
Chegamos ao Pinheirinho com 19 ou 20 km, e eu caminhei um pouco. Mas não por quebrar. Eu não conseguia baixar meu batimento cardíaco, e isso somado à perna "manca" me alertou: eu devia controlar muito bem a situação agora!
Aqui, eu pensei em desistir, parar, aguardar o Tiago e voltar de carro junto com ele. Então lembrei do nosso longão em que eu quebrei, e me toquei que 42km "não era tão mais longe" do que eu já havia ido. Eu tinha que continuar. E não hesitei em volar a correr.
Mesmo caminhando eventualmente, meu ritmo não ficou ruim. As sonhadas 3:30 já tinham ido por água abaixo tempos antes. Então, agora, a meta ficou em volta das 4h. E no 30 eu estava com 2:56, mesmo tendo caminhado relativamente muito. Estava bom!
E daí pra frente foi que eu abri mão. Guardava energia nas subidas, e corria sempre que me permitia. Na verdade, eu tinha mais perna do que parecia, mas considerava isso bom. Até o 37 não senti quebrar realmente, eu estava somente controlando a energia. Caminhava muito, é fato, mas talvez por inexperiência e medo.
Do km 38 pra frente, a maratona começou de verdade pra mim. Eu esqueci de tomar gel, usava três copos d'água a cada posto e cheguei a jogar isotônico com água na cara para refrescar. O sol pegou, e a energia já se tinha ido. Ali, era a garra, o coração, e usar a energia que todos os meus amigos haviam me enviado.
Mesmo caminhando eu dosava o ritmo. Nunca abaixo de 10min/km caminhando, e correndo eu não me preocupava com nada. Parava ao primeiro sinal de câimbra, este era o meu dosador.
Assim que virei na Cândido de Abreu e vi, lá longe, a chegada, senti um sopro no corpo todo. Uma dose altíssima de adrenalina fora injetada, incrível. Liguei o iPod e comecei a correr, decidido a correr o último km inteiro. Não consegui. Quase chegando no km 42, quebrei novamente.
Mas a visão logo se refrescou. Meus pais e a Isa estavam lá. Me viram, levantaram os braços, e gritaram "VAI"! Eu fui. E fui sem dó.
Quando voltei a correr, não tinha mais energia - sequer para fazer os 195m que, nesta hora, parecem 3km. Então comecei a gritar, sacudir os braços e pedir que as pessoas que assistiam gritassem também. Literalmente levantando os que assistiam ali. E acho que consegui. Não tenho certeza, porque daquela hora não tenho mais certeza de nada. Eu sei que eu senti as pessoas gritando junto, e isso funcionou. Como uma onda mesmo, eu fui passando, gritando, levantando os braços, e todos me deram a energia que faltava.
Cruzei a linha de chegada aos berros. E fui ao abraço dos meus pais, amigos, treinadores e todo o resto.
Muitos maratonistas dizem que a maratona começa no km 30 - antes disso é só administrar. Mentira. A maratona começa 4 meses antes, quando você coloca isso como seu objetivo e começa a treinar para ele. Os longos, os tiros, as lesões, as dores, os novos amigos, as ausências com os velhos amigos...
Quem não é maratonista jamais entenderá o que se passa, jamais compreenderá o quanto importante é cada "boa sorte", cada "VAI", cada palma que recebemos antes e durante o percurso. E eu não os culpo.
Aliás, pelo conrário. Talvez, eu deva um pedido de desculpas geral a todos os que me acompanharam neste trecho. E, mais que desculpas, um MUITO OBRIGADO. Aos amigos (principalmente do voo), à família, aos amigos próximos e aos nem tão próximos assim, meu mais sincero muito obrigado. Obrigado por entenderem, e aturarem, esta meta que coloquei para mim de terminar esta maratona. Tenho certeza que compensarei, aos poucos e do meu jeito, cada ausência, cada recusa de convites, cada decisão aparentemente antissocial que tomei nos últimos meses. Obrigado também ao Vitor e à V8, cujo apoio e assessoria foram essenciais para tornar esta meta factível!
Também, preciso agradecer ao Tiago, aquele que correu o começo comigo. Ele não sabe ainda, mas ele é que foi responsável por manter minha cabeça inteira. Numa conversa descompromissada no Barigui, ele virou pra mim e disse "ah, cara, eu não acho que quem caminhe tá errado; é melhor caminhar do que se matar!". Isso foi há umas 3 semanas, e trabalhei muito isso na minha cabeça - principalmente quando percebi que correria lesionado. Foi, com certeza, curtir esta maratona independentemente de ter caminhado!
E é fato sim que eu fiz bem acima da minha meta. É fato que eu caminhei. E é fato que eu apanhei desta prova. Mas a maratona é uma prova pessoal, não é para os outros. Com a medalha em mãos, eu posso fazer dela a memória que eu quiser - sem medo de exceder o egoísmo. E, com todo egoísmo que me cabe, eu encho o peito pra dizer: EU SOU MARATONISTA. E ninguém me convence do contrário. A partir de hoje, o meu nome vem acompanhado de um número. 42.195. Esse é meu número. ponto.
A canelite na perna esquerda sumira, pelo menos para caminhar. Às 5h50 minha mochila estava pronta, e eu estava de café tomado e vestido de "maratonista". O dia chegara, o dia finalmente chegara. Eu não cabia em mim de tanto ânimo.
Cheguei lá a tempo de ver as meninas passarem por nós, pontualmente às 6h30. Gritei para a Nádia e a Tânia, doando-as um pouco de energia extra - apesar de considerar que elas não precisariam (pensa em duas corredores muito fortes!!).
E então fui para a tenda da V8, para o aquecimento e alongamento. No aquecimento, a cada passo eu sentia uma pontada na canela. Racionalmente, eu não devia estar lá. Mas convença alguém que, por 3 meses, mastigou o desejo de viver aquilo; que abriu mão de voos, de saídas, de festas, por conta do "longão do dia seguinte". Nas quartas-feiras, eu acordava às 6h para ir ao parque treinar. Eu acordo às 8h normalmente, mas acordava às 6h para seguir a planilha. A ideia de desistir por conta de uma inflamação na perna que resolveu aparecer 10 dias antes da prova sequer passou pela minha cabeça.
O problema é que eu fiquei 10 dias sem treinar, e estes 10 dias saíram caro. Ganhei algum peso neste meio tempo, e perdi um pouco do ritmo. Para compensar isso, segurei o ritmo em 5:15/5:20. Não ajudou muito. Já na largada eu me sentia pesado e cansado. E a canela não queria ajudar.
O Tiago, que também treina na V8, iria fazer 21k para este ritmo, e seguimos juntos por um bom trajeto. Foi uma companhia muito bacana, demos algumas risadas no caminho e nos desgarramos no km 13. Apesar de ele ser mais forte do que eu, não estava num dia bom e baixou o ritmo ali.
E foi neste momento que eu prestei atenção na minha perna esquerda. A verdade é que eu não fazia um movimento de "corrida" com ela. Ela havia endurecido e era um bloco só correndo, como que não tivesse joelho. O corpo é mesmo incrível: para evitar a dor, ele simplesmente mudou a minha mecânica. Mas é claro que o preço disso não é baixo, e eu já sabia disso quando optei por correr mesmo com a inflamação.
Chegamos ao Pinheirinho com 19 ou 20 km, e eu caminhei um pouco. Mas não por quebrar. Eu não conseguia baixar meu batimento cardíaco, e isso somado à perna "manca" me alertou: eu devia controlar muito bem a situação agora!
Aqui, eu pensei em desistir, parar, aguardar o Tiago e voltar de carro junto com ele. Então lembrei do nosso longão em que eu quebrei, e me toquei que 42km "não era tão mais longe" do que eu já havia ido. Eu tinha que continuar. E não hesitei em volar a correr.
Mesmo caminhando eventualmente, meu ritmo não ficou ruim. As sonhadas 3:30 já tinham ido por água abaixo tempos antes. Então, agora, a meta ficou em volta das 4h. E no 30 eu estava com 2:56, mesmo tendo caminhado relativamente muito. Estava bom!
E daí pra frente foi que eu abri mão. Guardava energia nas subidas, e corria sempre que me permitia. Na verdade, eu tinha mais perna do que parecia, mas considerava isso bom. Até o 37 não senti quebrar realmente, eu estava somente controlando a energia. Caminhava muito, é fato, mas talvez por inexperiência e medo.
Do km 38 pra frente, a maratona começou de verdade pra mim. Eu esqueci de tomar gel, usava três copos d'água a cada posto e cheguei a jogar isotônico com água na cara para refrescar. O sol pegou, e a energia já se tinha ido. Ali, era a garra, o coração, e usar a energia que todos os meus amigos haviam me enviado.
Mesmo caminhando eu dosava o ritmo. Nunca abaixo de 10min/km caminhando, e correndo eu não me preocupava com nada. Parava ao primeiro sinal de câimbra, este era o meu dosador.
Assim que virei na Cândido de Abreu e vi, lá longe, a chegada, senti um sopro no corpo todo. Uma dose altíssima de adrenalina fora injetada, incrível. Liguei o iPod e comecei a correr, decidido a correr o último km inteiro. Não consegui. Quase chegando no km 42, quebrei novamente.
Mas a visão logo se refrescou. Meus pais e a Isa estavam lá. Me viram, levantaram os braços, e gritaram "VAI"! Eu fui. E fui sem dó.
Quando voltei a correr, não tinha mais energia - sequer para fazer os 195m que, nesta hora, parecem 3km. Então comecei a gritar, sacudir os braços e pedir que as pessoas que assistiam gritassem também. Literalmente levantando os que assistiam ali. E acho que consegui. Não tenho certeza, porque daquela hora não tenho mais certeza de nada. Eu sei que eu senti as pessoas gritando junto, e isso funcionou. Como uma onda mesmo, eu fui passando, gritando, levantando os braços, e todos me deram a energia que faltava.
Cruzei a linha de chegada aos berros. E fui ao abraço dos meus pais, amigos, treinadores e todo o resto.
Muitos maratonistas dizem que a maratona começa no km 30 - antes disso é só administrar. Mentira. A maratona começa 4 meses antes, quando você coloca isso como seu objetivo e começa a treinar para ele. Os longos, os tiros, as lesões, as dores, os novos amigos, as ausências com os velhos amigos...
Quem não é maratonista jamais entenderá o que se passa, jamais compreenderá o quanto importante é cada "boa sorte", cada "VAI", cada palma que recebemos antes e durante o percurso. E eu não os culpo.
Aliás, pelo conrário. Talvez, eu deva um pedido de desculpas geral a todos os que me acompanharam neste trecho. E, mais que desculpas, um MUITO OBRIGADO. Aos amigos (principalmente do voo), à família, aos amigos próximos e aos nem tão próximos assim, meu mais sincero muito obrigado. Obrigado por entenderem, e aturarem, esta meta que coloquei para mim de terminar esta maratona. Tenho certeza que compensarei, aos poucos e do meu jeito, cada ausência, cada recusa de convites, cada decisão aparentemente antissocial que tomei nos últimos meses. Obrigado também ao Vitor e à V8, cujo apoio e assessoria foram essenciais para tornar esta meta factível!
Também, preciso agradecer ao Tiago, aquele que correu o começo comigo. Ele não sabe ainda, mas ele é que foi responsável por manter minha cabeça inteira. Numa conversa descompromissada no Barigui, ele virou pra mim e disse "ah, cara, eu não acho que quem caminhe tá errado; é melhor caminhar do que se matar!". Isso foi há umas 3 semanas, e trabalhei muito isso na minha cabeça - principalmente quando percebi que correria lesionado. Foi, com certeza, curtir esta maratona independentemente de ter caminhado!
E é fato sim que eu fiz bem acima da minha meta. É fato que eu caminhei. E é fato que eu apanhei desta prova. Mas a maratona é uma prova pessoal, não é para os outros. Com a medalha em mãos, eu posso fazer dela a memória que eu quiser - sem medo de exceder o egoísmo. E, com todo egoísmo que me cabe, eu encho o peito pra dizer: EU SOU MARATONISTA. E ninguém me convence do contrário. A partir de hoje, o meu nome vem acompanhado de um número. 42.195. Esse é meu número. ponto.
No www.linhadechegada.com está publicado o tracklog, informações de velocidade e batimento km a km...
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